Terça-feira, Dezembro 21, 2010

Aquele de magia, de teatro, de música…

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Camarada, viva a vida mais leve, não deixe que ela escorregue, que cause mais dor… Viva a tua maneira, não perca a estribeira, saiba do teu valor. E amanheça brilhando mais forte que a estrela do norte que a noite entregou. Camarada D’Água, d’O Teatro Mágico.

… E de amigos e de amor.

Porque chegará o dia em que não bastará apenas estar – neste momento, será preciso ser. E para ser, criar-se. Dos pedaços e dos resquícios. Amontoar-se, partindo do princípio e do principal. Usar todo artifício, toda arte fácil, todo verso simples, todo o avesso e o contrário e o inteiro.

Porque chegará a tarde de um dia de chuva em que não bastará apenar ficar sob a coberta – será preciso sair aos ventos e molhar-se. E secar-se, deixar que os outros sequem as lágrimas. E deixar que o calor que aqueça seja mais humano, nem tanto ameno, sempre a mais, nada a menos.

Porque cairá a noite em que só sonhar será tão pouco, pouco, pouco… Uma noite em que um pouco de magia surgirá ao som de dó menor e de uma letra de música. De um sorriso, uma piada e uma lua crescente. E será preciso que se cresça com a lua, até a lua, até o céu, até onde nem os olhos alcançam.

Porque chegará a fria madrugada e será preciso que se seja tudo, que se esteja junto, que se junte tudo em uma coisa só, como diz aquela música dos caras do circo. E quando chegar a hora, que se esteja pronto, e junto, e feito.

Quarta-feira, Dezembro 15, 2010

Amanhecer

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Porque não é só o dia que amanhece. A alma também.

Amanhece ao meu redor. A chuva da noite anterior deixou rastros de lama na calçada, mas eu nem ligo. Meu coração aperta e logo depois afrouxa. Parece até… nem sei o que parece. O vento frio à beira do rio atrapalha meus cabelos e resseca meus olhos. Minhas mãos esfriam e suam. Isso mesmo. Eu me lembro das lágrimas que eu deixei correr noite adentro, porque simplesmente era incapaz de contê-las. Elas levavam consigo o peso do mundo que eu vinha carregando e que, agora, não mais. Joguei fora o fardo que carregava, pois só assim conseguirei escalar meu rumo e chegar mais alto, mais longe. Aqueles sentimentos ruins se foram, junto com todas as pessoas que não me traziam mais que lágrimas; estou me livrando do que não agrega. Acontece que meus sonhos estavam reclamando que eu os havia deixado de lado; sentiam falta do gosto das gotas do meu suor. É bem verdade que eu havia cerrado meus próprios olhos, vendando-os de rancor. Eu estava impedindo a mim mesma de enxergar o horizonte que me rodeia, e meus crepúsculos pareciam um tanto ofuscados e banais; eu insistia em manter o mutável, em mudar o constante. E lutava em vão. Em vão, porque não lutava por mim; lutava para eliminar algo que nem fazia parte de mim, o que tornava impossível me desfazer disto. Eu me lembro do aperto no peito, como aperta agora ao lembrar, de quando eu via quem não queria, ouvia o que não precisava, lia o que me doía. E não adiantava fechar os olhos, colocar fones no ouvido; era preciso, primeiro, mudar os parâmetros. E foi o que eu fiz. Mudei minha forma de pensar. Não, não é fácil. Dói excluir de dentro de si o que é inerente à personalidade. Mas ainda é mais fácil livrar-me do que controlo, do que é parte de mim; tentar tirar os ingredientes que fazem outro qualquer é impossível. Arrancar um pedaço, pequeno que seja, precisa de muita determinação e cuidado. Cuidado depois, para curar e tentar deixar a menor marca possível. Tirei do meu coração o excesso de preocupações, angústias e receios. Tranquei em um baú e joguei mar adentro. Chorei, sim, para que o choro lavasse a alma e a ferida. Chorei, porque um pedaço se foi e não mais vai voltar. Um defeito, uma qualidade, não importa; são partes da minha estrutura e me firmam. Por isso, dói. Mas as lágrimas pararam de escorrer com o tempo, e veio o sentimento de libertação. Agora não há mais tanta coisa ruim apertada num só coração; tirei meus excessos e abri espaço para o que valha mais a pena. Abraços apertados preencheram um pouco do buraco que deixei, como remédio em ferida aberta.

Amanhece ao meu redor e eu me sinto mais leve. Mais livre. Amanhece, e aproveitando a luz do sol a meu favor, parece mais fácil seguir em frente. E é. Amanhece ao meu redor e eu me sinto mais viva.

Terça-feira, Dezembro 07, 2010

Um edifício no meio do mundo

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"Sendo muito e tendo pouco, dando muita explicação." (Nando Reis)

Para os que esperam de mim o edifício mais alto: não me esperem. Eu vou muito longe, e por muito tempo, não dá para me deter em tais efemeridades. Construir grandes sonhos não me convém; sobrevivo dos pequenos de cada dia, que subo um a um como em degraus. Degraus grandes demais cansam - assim os sonhos tão grandes. Vez ou outra me verão correr escadaria abaixo; é que meu cérebro trabalha muito rapidamente para me deter num só rumo. Por vezes voltar para consertar algum degraus lá embaixo que está rangendo facilita para os que seguem nossos passos. Para os que de mim esperam grandes atos: não esperem. Me faço de coisa pequenas, muitas e ao mesmo tempo, como palavras em um novo livro, a cada dia. E uma estante cheia dele na parede do quarto por toda a vida.