
Porque não é só o dia que amanhece. A alma também.
Amanhece ao meu redor. A chuva da noite anterior deixou rastros de lama na calçada, mas eu nem ligo. Meu coração aperta e logo depois afrouxa. Parece até… nem sei o que parece. O vento frio à beira do rio atrapalha meus cabelos e resseca meus olhos. Minhas mãos esfriam e suam. Isso mesmo. Eu me lembro das lágrimas que eu deixei correr noite adentro, porque simplesmente era incapaz de contê-las. Elas levavam consigo o peso do mundo que eu vinha carregando e que, agora, não mais. Joguei fora o fardo que carregava, pois só assim conseguirei escalar meu rumo e chegar mais alto, mais longe. Aqueles sentimentos ruins se foram, junto com todas as pessoas que não me traziam mais que lágrimas; estou me livrando do que não agrega. Acontece que meus sonhos estavam reclamando que eu os havia deixado de lado; sentiam falta do gosto das gotas do meu suor. É bem verdade que eu havia cerrado meus próprios olhos, vendando-os de rancor. Eu estava impedindo a mim mesma de enxergar o horizonte que me rodeia, e meus crepúsculos pareciam um tanto ofuscados e banais; eu insistia em manter o mutável, em mudar o constante. E lutava em vão. Em vão, porque não lutava por mim; lutava para eliminar algo que nem fazia parte de mim, o que tornava impossível me desfazer disto. Eu me lembro do aperto no peito, como aperta agora ao lembrar, de quando eu via quem não queria, ouvia o que não precisava, lia o que me doía. E não adiantava fechar os olhos, colocar fones no ouvido; era preciso, primeiro, mudar os parâmetros. E foi o que eu fiz. Mudei minha forma de pensar. Não, não é fácil. Dói excluir de dentro de si o que é inerente à personalidade. Mas ainda é mais fácil livrar-me do que controlo, do que é parte de mim; tentar tirar os ingredientes que fazem outro qualquer é impossível. Arrancar um pedaço, pequeno que seja, precisa de muita determinação e cuidado. Cuidado depois, para curar e tentar deixar a menor marca possível. Tirei do meu coração o excesso de preocupações, angústias e receios. Tranquei em um baú e joguei mar adentro. Chorei, sim, para que o choro lavasse a alma e a ferida. Chorei, porque um pedaço se foi e não mais vai voltar. Um defeito, uma qualidade, não importa; são partes da minha estrutura e me firmam. Por isso, dói. Mas as lágrimas pararam de escorrer com o tempo, e veio o sentimento de libertação. Agora não há mais tanta coisa ruim apertada num só coração; tirei meus excessos e abri espaço para o que valha mais a pena. Abraços apertados preencheram um pouco do buraco que deixei, como remédio em ferida aberta.
Amanhece ao meu redor e eu me sinto mais leve. Mais livre. Amanhece, e aproveitando a luz do sol a meu favor, parece mais fácil seguir em frente. E é. Amanhece ao meu redor e eu me sinto mais viva.