♪ Eu não quero ver você fumando ópio pra sarar a dor ♪
Eu via você andar devagarinho desde o momento em que surgiu na esquina, passo a passo, segundo a segundo. Uma eternidade. A parede às minhas costas parecia ter esquecido que era meio-dia e o sol estava a pino. Ou era só o frio na espinha? Você demorou a me ver ou estava apenas adiando o momento? Vai saber. Eu lhe esperava como condenado no corredor da morte. Morte por amar demais. Morte por não ter (mais) de volta esse amor demais. Quando você me avistou, meus pés tremeram. Por que tem que ser assim? Você andou até mim, parada num canto qualquer, apoiada numa parede para não desmoronar. E você me disse tudo aquilo de que eu vinha fugindo. Você desenhou em meus olhos aquilo que eu há tempos me recusava a enxergar. E eu até talvez sempre soubesse, desde aquele dia em que seus olhos encontraram os meus, que seus sonhos não eram mais os meus. Seu amor não era mais meu. Mas amar é assim. Eu vi você virar as costas e me deixar ali, parada, sozinha. Só. Encostada naquela parede fria de pedra, que não parecia ter outra serventia além de me sustentar em pé, agora que você decidira não mais o fazer. Eu vi você desaparecer na esquina, e um vento frio arrepiou minha pele. Eu vi você desaparecer na esquina, sumir da minha vida. E só.
