Quarta-feira, Março 09, 2011

Distrações

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O homem fingia-se distraído, mas ouvia o que ela dizia. Lágrimas escorriam pela face alva da moça sentada à beira da rua, mas ele parecia não se comover com isso. Olhava para a esquina, àquele momento deserta, e de tempos em tempos tomava um gole da Coca Diet que segurava.

“E não importa o que eu faça, toda noite é a mesma coisa. O mesmo sonho angustiante, as mesmas cenas tristes. Parece que meu pensamento gosta de me fazer sofrer… Meu cérebro não quer dar calma ao meu coração. A todo lugar que eu vá, eu penso nele. Cada rosto me lembra o dele, e cada música triste parece um pedaço da nossa história. É simplesmente tão… tão difícil. Ninguém consegue realmente entender o que se passa dentro de mim. E eu me sinto tão .”

Ela levantou o rosto para o homem parado ao seu lado. Ele insistia em não olhar em sua direção. Girava a lata de refrigerante, agora vazia, entre os dedos de uma e outra mão, ainda observando a esquina. Uma fina garoa começava a cair sobre os dois e a noite já ia longe.

“Vem, vamos andando”, ele disse, tirando o casaco preto e cobrindo a moça. Ajudou-a a levantar-se da calçada e, gentilmente, conduziu-a rua acima. “Vamos andando. Pode estar doendo e eu talvez não entenda metade do que você sente. Mas está começando a chover e se ficarmos aqui, você vai ficar resfriada. E eu não quero que você fique mal”.

Ele jogou a lata vazia de Coca Diet em uma cesta de lixo na esquina e então segurou a mão da garota que acompanhava. Não disse mais nada até deixa-la à porta de casa, onde se despediu e foi embora, pensando em quanto tempo ela levaria para esquecer a dor desse amor destroçado. Quanto tempo a garota levaria até perceber que ele esteve ali todo esse tempo ao lado dela, e sempre estaria, sem forçar a barra, sem se aproveitar dos seus momentos mais fracos. A chuva já era um temporal quando ele chegou em seu apartamento do outro lado da cidade. Passando as mãos pelos cabelos ensopados, ele murmurava consigo mesmo o quão confusas as pessoas podem ser, sem notarem os amores disfarçados de amigos que as rodeiam.