Quando parei de ouvir e comecei a ver, foi quando comecei a viver de fato. Comecei a enxergar que as dores que eu sentia eram arranhões que eu mesma fazia, e o cinza das paredes eu mesma havia pintado em meus pesadelos. Vi que o coração da gente só aperta quando a gente lota ele, seja de muito amor (aperta de saudade), seja aperto de dor (cheio de rancor). E que o frio na barriga assusta, mas é incrível poder pular muros altos e deixar para trás palavras que não estimulam. Quando parei de dar atenção ao que sai de outras bocas e comecei a ouvir minha alma falando, senti o quanto ela é inquieta; sedenta de motivos para existir; pedindo abertamente desafios, exigindo amores incondicionais. Foi quando diminuí o volume do mundo que pude ouvir o tutu-tutu do meu coração, descompassado ao som da música, querendo dançar acompanhado, todo à mercê da brisa fresca. E quando comecei a me ver mais e me ouvir mais, é que pude sentir com clareza a beleza do que há em mim. Desliguei o áudio desse mundo que critica meu sentir como eu sinto para então poder ouvir os sinos ao longe.
// Ao som de The Death of You and Me - Noel Gallagher //
